RESUMO: RESSONÂNCIA, MATERIALIDADE E SUBJETIVIDADE: AS CULTURAS COMO PATRIMÔNIOS*
AUTOR DO TEXTO: José Reginaldo Gonçalves
CITAÇÃO: GONÇALVES, José R.S. (2005) “Ressonância, materialidade e subjetividade: as culturas como patrimônio”. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, Ano 11, N. 23, pp. 15-36, jan./jun.
Resumo por: Heidi Ferreira da Costa
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RESUMO
O artigo se inicia com as múltiplas definições no dicionário para a palavra “patrimônio”. A partir desta exposição, o autor propõe que o próprio termo “patrimônio”, em especial o conceito antropológico de “patrimônio cultural” seja analisado em 3 categorias: Ressonância, Materialidade e Subjetividade.
Problematizando o fato de que, por seu uso excessivo, o termo “patrimônio” perdeu delimitações essenciais, ele defende que este seja utilizado como uma categoria de pensamento, uma “ponte”, que faça referência a categorias distintas e analiticamente bem delimitadas.
Ao iniciar a seção “Ressonância”, o texto traz considerações sobre o fato de que, em muitas culturas, o bem possuído é indissociável de seu possuidor e reflete aspectos tanto da posição deste quanto de sua própria sociedade.
Prosseguindo, ressalta-se que:
Nas análises dos modernos discursos do patrimônio cultural, a ênfase tem sido posta no seu caráter “construído” ou “inventado”. Cada nação, grupo, família, enfim cada instituição construiria no presente o seu patrimônio, com o propósito de articular e expressar sua identidade e sua memória. (p.19)
Entretanto, ainda sob estas considerações modernas, nem tudo aquilo que é declarado patrimônio por uma sociedade (pelos processos de patrimonialização do Estado) encontra reconhecimento junto à setores da população.
É então que o autor introduz a importância da categoria ressonância: “Os objetos que compõem um patrimônio precisam encontrar “ressonância” junto a seu público. ”(p.19). Ele esclarece então que esta seria a capacidade de um objeto de se fazer perceber como o representante de aspectos culturais do qual ele emergiu diante de seu espectador.
Segundo
Reginaldo, “o acesso que o patrimônio
possibilita, por exemplo, ao passado não depende inteiramente de um trabalho
consciente de construção no presente, mas, em parte, do acaso”.(P. 20) e
por isso nem sempre o trabalho de construção de memórias coletivas alcança o
sucesso.
A
próxima seção do artigo, denominada materialidade,
se inicia com uma contraposição entre a materialidade que sempre esteve
presente na noção de patrimônio e a moderna concepção de patrimônio imaterial,
ou intangível, que estaria mais preocupado com as relações sociais,
representando a compreensão antropológica contemporânea de cultura.
Ainda
assim o autor declara que “Não há como
falar em patrimônio sem falar sobre sua dimensão material”. (p. 21). Esta
materialidade seria no entanto, uma categoria ambígua, que transita entre o
material e o imaterial.
Desta
forma, aquilo que é concebido como patrimônio cultural, pode englobar também
objetos simples e cotidianos, como uma rede de dormir, que “podem ser certamente entendidos como “patrimônios”, na medida em que,
pela sua ressonância junto a grande parte da população brasileira, realizam
mediações importantes entre o passado e o presente, entre o imaterial e o
material, entre a alma e o corpo, entre outras. ” (P. 22)
Segundo
o autor, objetos materiais sublinham as dimensões sociais da cultura. Seria
necessário, então, dar atenção às técnicas corporais segundo as quais eles são
manuseados e utilizados. Ele traz então,
como exemplo, o estudo de Câmara Cascudo sobre as redes de dormir, para
demonstrar como esse objeto possuía também significado social, simbólica e
moral sendo uma representação da ligação indissociável entre corpo e cultura.
O texto
passa então para sua próxima sessão, denominada subjetividade, que será voltado a demonstrar “o papel fundamental que desempenha a categoria do patrimônio no
processo de formação de subjetividades individuais e coletivas. ” (p.27)
Neste
ponto, são apresentadas as duas concepções históricas para o termo cultura. Na
primeira concepção, a cultura é concebida como um trabalho e esforço de
aperfeiçoamento humano. Já na segunda concepção, a cultura seria vista como o
reflexo das expressões e identidades de grupos humanos, uma espécie de “alma
coletiva”.
Reginaldo
alega que estas duas concepções trazem repercussões para a categoria
patrimônio, pois, “se, por um lado, este pode
ser entendido como a expressão de uma nação ou de um grupo social, algo
portanto herdado, por outro, ele pode ser reconhecido como um trabalho
consciente, deliberado e constante de reconstrução.” (p. 28)
Há
ainda a dualidade entre o singular e o universal, que pode ser mediada pela
categoria patrimônio. Reginaldo empresta de Marcel Mauss o conceito de arbitrário social, para determinar que,
sendo os patrimônios arbitrários em sua natureza, “eles próprios é que, na verdade, constituem um centro que é histórica
e culturalmente constituído, podendo assumir múltiplas formas no tempo e no
espaço”. (p.29)
O
texto apresenta então a noção de cultura
autêntica, emprestada de Edward Sapir. Essa cultura autentica faz oposição
à “cultura enlatada” e consiste em uma cultura organicamente desenvolvida pelo
grupo, que não se impõe a ele, mas que seria harmoniosa e autêntica. Uma
expressão da criatividade desse grupo. Na cultura autentica a relação com o
passado não é apenas a de uma apreciação, como a de objetos em vitrines, mas de
vivência no presente e que se projeta para o futuro.
Esse
aspecto, cabe sublinhar, mantém uma ostensiva afinidade com a categoria
“patrimônio”, tal como a estamos explorando nestas reflexões. Ele articula-se
intimamente com a dimensão da subjetividade, uma vez que esta pressupõe sempre
alguma forma específica de continuidade entre passado, presente e futuro.
(p.31)
O
texto conclui que:
As
variações de significado nas representações sobre a categoria “patrimônio”
oscilam possivelmente entre um patrimônio entendido como parte e extensão da
experiência, e portanto do corpo, e um patrimônio entendido de modo
objetificado, como coisa separada do corpo, como objetos a serem identificados,
classificados, preservados, etc. (p.32)
O
patrimônio relacionado à experiência e ao corpo seria aquele da conexão
simbólica do indivíduo com sua cultura, enquanto o objetificado é aquele passou
por um processo de singularização para se ternar representante de algo.
Reginaldo
termina o texto defendendo que os discursos e as políticas públicas de
patrimônio sejam menos obsessivos a respeito da objetificação e aceitem o
caráter ambíguo do patrimônio.
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